O mercado de games já mostrou a força que tem e como vai muito além de adolescentes e jovens adultos que só querem saber de brincar. Segundo projeções da plataforma de dados Newzoo, esse mercado deve movimentar mais de US$ 200 bilhões mundialmente em 2022. E foi apostando nesse potencial que João Sampaio, mais conhecido como Flakes, e João Feio, que usa o codinome Biggie, criaram as empresas Hero Base e Hero Create. A última, especializada em criar mundos no metaverso do Fortnite para grandes empresas, faturou R$ 1,5 milhão em quatro meses de existência.
João “Biggie” Feio e João “Flakes” Sampaio, os sócios da Hero Base e da Hero Create (Foto: Divulgação)
A empresa começou a partir do canal de YouTube de Flakes, criado em 2016 sem muita pretensão, para dar dicas de jogos. Ele acabou conquistando os seguidores e alcançou a marca de 1 milhão de inscritos em um ano. Em 2018, contratou os serviços de edição de vídeo de Biggie, que havia conhecido em um evento de games. A parceria foi crescendo, Biggie começou a ajudar também na parte criativa de roteiros para o canal e decidiu deixar a empresa e o próprio projeto no YouTube para investir em Flakes.
Os sócios já tinham a vontade de criar uma organização de eSports, mas o medo de dar um passo mais largo os impedia de seguir com o plano. Há cerca de um ano e meio, após o Itaú sinalizar que queria ser patrocinador do projeto, eles decidiram dar uma chance para o negócio. “Eu estava em uma situação confortável, ganhando uma grana legal, para que eu vou expandir? Eu nunca tive um negócio, pessoas trabalhando para mim. Mas surgiu essa oportunidade e não quisemos perder”, relembra Flakes. Nascia oficialmente a Hero Base, uma organização com grandes criadores de conteúdo de Fortnite.
Atualmente, cerca de 60 colaboradores atuam diretamente na empresa, em funções que vão de filmmaker a designer. Além dos jogadores profissionais de Fortnite que competem, a organização também tem uma frente de criadores de conteúdo, com influenciadores que somam milhões de seguidores. A Hero Base cuida da produção de mídia para as redes sociais, dando suporte de fotografia e edição, e supervisiosa a estratégia de carreira, trabalhando comercialmente os talentos e agenciando os influenciadores para criar conteúdo para grandes marcas.
Há quatro meses, a Hero Create surgiu como um spin-off, um braço derivado da empresa-mãe, para criar mundos no metaverso. Inicialmente, essa era apenas uma pequena área de desenvolvedores da Hero Base, mas a demanda foi aumentando conforme o Fortnite começou a bombar e ganhar novos jogadores. A própria empresa desenvolvedora do jogo, Epic Games, incentiva a criação de mundos pela comunidade, o que se mostrou como oportunidade para as marcas.
“Hoje o Fortnite é uma primeira experiência de metaverso onde já é possível jogar em conjunto com outras pessoas no mesmo lobby, proporciona uma interação grande e permite fazer compras no mundo digital. A experiência é muito forte e as empresas começaram a olhar para isso e buscar quem poderia criar para eles”, explica Biggie.
Apesar de não ser jogado com óculos de realidade aumentada, o Fortnite é visto por muitos como um ambiente no metaverso, por permitir a criação e imersão em novos mundos e a interação com outros jogadores. Recentemente, a Epic Games investiu, ao lado de outras empresas, na startup Hadean, que fornece estrutura e tecnologia para monetizar o metaverso, o que pode indicar a vontade da companhia de levar o Fortnite ao próximo nível de imersão.
A empresa cuida de todo o design e desenvolvimento dos mapas para as empresas conseguirem entrar no universo do game e gerar engajamento com um público diferente do que estão acostumados a alcançar com a mídia tradicional. Depois do mapa feito e aprovado, a Hero faz a ponte com a comunidade gamer, conectando o universo criado com os influenciadores referência no jogo.
Segundo Biggie, construir um mapa no game é como construir uma casa, e o processo depende das escolhas de cada cliente. Ele ressalta que, atualmente, o Fortnite impõe uma grande limitação por não permitir a importação de assets para dentro do ambiente do jogo, disponibilizando a criação dos mundos apenas com as funcionalidades do próprio game. As construções levam cerca de um mês com o trabalho de 12 desenvolvedores focados apenas nessa função.
Um dos trabalhos da Hero Create, o Rock in Verse, que levou o Rock in Rio para o Fortnite (Foto: Divulgação)
Em pouco tempo de atividade, os sócios já notam uma mudança de comportamento das marcas, que estão buscando se inserir no metaverso de Fortnite sem ter, necessariamente, uma conexão direta a um lançamento específico ou alguma ativação pontual. Agora, segundo eles, procuram a Hero Create para criar seus próprios mundos no jogo para, a partir dele, criar ativações quando quiserem.
Entre as marcas com quem os empreendedores já trabalharam estão Itaú, Coca-Cola, Havaianas, Doritos e Rock in Rio. A Samsung, por exemplo, criou um mapa para lançar um modelo de celular, e agora decidiu criar várias ilhas com minigames que conversam com as funcionalidades dos produtos da marca, trazendo mais conhecimento sobre a empresa e seu portfólio, inserido no universo do jogo.
“É como se fosse no dia a dia mesmo, com os prédios com logo de empresas, outdoors anunciando produtos. A ideia é divertir o jogador, não só incentivar a compra de um produto, já que isso já é feito em outros canais de mídia. Instruímos as marcas a trazerem experiências porque elas engajam os jogadores”, pontua Biggie.
Com R$ 1,5 milhão de faturamento em apenas quatro meses de operação, a estimativa é encerrar o ano faturando R$ 3 milhões em negócios fechados. Os sócios contam que não conseguem expandir a produção e abraçar mais demandas pela dificuldade na contratação de funcionários especializados no desenvolvimento para o Fortnite, o que os leva a recusar trabalhos. De olho no futuro, eles estão capacitando profissionais e montando equipes com foco em outros jogos, como Minecraft, Roblox e GTA, para oferecer mais possibilidades para as marcas.
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